10/13/2009

Time to say thank you!



Research shows that people get a psychological boost from saying "thank you" to someone that has helped them. So that is what we are going to do... I invite everyone to write a short "thank you" to someone who has made their life better. It might be your partner, friend, parents, work colleagues or indeed anyone. It might be something big or small. Feel free to mention them by name or keep it anonymous.

OK, here we go... Who would you like to thank and why?

10/04/2009

O primeiro dos românticos

É provável que, como quase todo mundo, você nunca deve ter parado para pensar sobre a real origem do amor. Não me refiro, obviamente, a esses corriqueiros, que nutre-se pelo namoradinho, por determinada especialidade gastronômica ou pela música que marcou aquele verão inesquecível. Digo, o amor sublime, o sentimento soberano que ao longo dos séculos inspirou nossa produção artística, o mesmo que rege a ordem de todas as coisas (embora, atualmente, muitos creditem ao dinheiro essa responsabilidade).


Por ser inerente à condição humana o amor é imprescindível como o são água e ar (nossa, que bonito…); enquadra-se, portanto, na categoria de sensações e atitudes involuntárias que, de tão fundamentadas, acabam por tornar-se quase invisíveis, ou alguém aí tem o costume de dedicar profundas reflexões à própria respiração? No mais, alegariam os pragmáticos, amor é para ser sentido, e não analisado. Certo?

Errado. Aparentemente não compartilham da mesma opinião alguns cientistas norte-americanos, que se empenham além do razoável para rastrear indícios do primeiro ato de amor ocorrido sobre a face da terra. A manifestação que nos é tão peculiar, segundo recentes pesquisas publicadas pelo grupo, nada teria a ver com romantismo ou cultura. Trata-se de uma reação química instintiva, herdada de nossos ancestrais, um desses manjados truques sujos do cérebro no afã de perpetuar nossa espécie.

Estudos que associam reações do nosso comportamento, tidas como espontâneas, a mecanismos de sobrevivência não chegam a ser novidade, mas o que chama atenção para esse caso em específico é a pitoresca teoria: no período que antecedeu o surgimento do homem moderno, mais ou menos há um milhão de anos, evidenciou-se o início da supremacia das relações monogâmicas. A decisão, imagino, não foi motivada por uma crise de consciência entre primatas que, de súbito, passaram a se incomodar com o caráter efêmero de suas relações.

Partiu das fêmeas, a altura ainda há pouco caminhando sobre os pés, a iniciativa de procurar parceiros fixos que as ajudassem a superar as enormes vicissitudes daqueles tempos. Se antes mães solteiras e bem resolvidas conseguiam acomodar numerosas proles nas costas sem maiores complicações, quando bípedes, tinham as mãos constantemente ocupadas pela obrigatoriedade de carregar seus filhotes no colo.

Esbanjando traços de liderança e de capacidade de convencimento que até hoje lhes são tão naturais, não tardou para que esse “protótipo de mulher” percebesse vantagens em ter um macho por perto. De preferência um que se deixasse afeiçoar pela cria, inclusive a gerada por outros varões, e que pudesse realizar tarefas cotidianas, que à época correspondessem a trocar lâmpadas, carregar sacolas ou levar as crianças para jogar videogame no shopping.

Aos leitores do sexo masculino, que possivelmente se indignaram com a condição subserviente de nossos equivalentes pré-históricos, pobres peões ludibriados pela ilusão do amor, lembro que o jogo não parece ter mudado tanto desde então. Vai ver está no DNA a predisposição para ser… úteis. Não me espantaria se tanto homens quanto mulheres explicitassem repúdio à ideia de que suas paixões fulminante e viscerais, consumadas ou idealizadas, teriam sido na verdade motivadas pelo fluxo ocasional de correntes elétricas cerebrais.

Em suma, o mecanismo que nos leva a amar não difere em quase nada do que condiciou os cães a se tornarem melhores amigos do homem: senso de oportunidade. Embora decepcionante a pesquisa ao menos sugere uma ótima desculpa para quando as mulheres acusarem os homens de não estar sendo românicos: “bem, você sabe como é, a espécie já está garantida…”
Bruno Medina

9/20/2009

A Arte de Perder




A arte de perder não é difícil de dominar. Tantas coisas contêm em si a prerrogativa da perda, que perdê-las não é nenhum desastre.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, a perda das chaves da porta, a hora gasta inutilmente. A arte de perder não é difícil de dominar.

Depois perca além, mais rápido: lugares, nomes, situações...tantas coisas. Nada disso trará um desastre.


Perdi o relógio de mamãe. E veja! Minha ultima, ou antepenultima, de três casas amadas que tive. A arte de perder não é difícil de dominar.

Perdi duas cidades lindas. E um império que eu possui, dois rios, e mais um continente. Sinto falta deles. Mas não foi um desastre.

Mesmo perder você (a voz engraçada, o gesto que eu amo) não muda nada. Pois é evidente que a arte de perder não é tão difícil de dominar por mais que pareça (Escreva!) um desastre.

(All that I write is false, it’s evident. The art of losing isn’t hard to master. Anything at all anything but one’s love - Say it: disaster.)


Elizabeth Bishop

8/13/2009

Mais uma sobre o amor

“Não existe um investimento seguro. Amar é ser vulnerável. Ame qualquer coisa e seu coração irá certamente ser espremido e possivelmente partido. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, não deve dá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em passatempos e pequenos confortos, evite todos os envolvimentos, feche-o com segurança no esquife ou no caixão do seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sombrio, imóvel, sufocante – ele irá mudar. Não será quebrado, mas vai tornar-se inquebrável, impenetrável, irredimível. A alternativa para a tragédia, ou pelo menos para o risco da tragédia, é a danação. O único lugar fora do céu onde você pode manter-se perfeitamente seguro contra todos os perigos e perturbações do amor é o inferno.”

C.S.Lewis em “Os Quatro Amores”

8/05/2009

Você ama, mas...

Não é o tempo inteiro que você ama quem você ama. Há intervalos, pausas, preguiças. Às vezes você passa um tempo sem amar quem você ama. Mas basta um perigo, uma doença, um assédio para você despertar para o seu amor, como de uma cochilada.

Nada a ver com desinteresse. Às vezes quem você ama faz alguma coisa que não é legal, que mexe com você, como uma palavra num tom errado, mas é coisa pequena, não vale a pena cobrar. Fica aquela preguiça, corpo mole. Beija, mas não é aquele beijo.

Outras vezes você acha que o seu amor falhou com você. Ou porque se esqueceu do seu aniversário, ou porque não ligou o dia inteiro, ou porque ligou o dia inteiro, ou porque passa tempo demais na internet, ou com fones nos ouvidos, desligado de você. Então você se permite um tempo para descansar um pouco do seu amor. Acha que está dando mais do que recebendo, e com isso tem deixado de fazer coisas, suas coisas. Aproveita o tempo para responder a e-mails acumulados, enviar fotos que ficou devendo, lavar o carro, copiar a chave perdida, levar o cão para um banho e tosa, pagar uma visita, levar aquele sapato para o conserto, talvez pedalar no parque. É gostoso esse tempo em que você não ama quem você ama, é quase como um fim de semana prolongado, sem viajar.

Tem horas em que você não se lembra de que está amando quem você ama, com tanta coisa para fazer disputando espaço na sua cabeça: trabalho, vestibular, currículo, entrevista, negócio, mãe, prestação vencida, filho, escola, compromissos, trânsito – e se distrai. Nessas horas você não está amando quem você ama. Não são falhas, são intervalos.

Chega um dia em que você precisa receber mais atenção de quem você ama, está carente, hipersensível, e não recebe. Em resposta, você dá uma recuada. Ou tem dia em que você está muito a fim e não coincide, e aí você recolhe a mão curiosa. Ou quer carinho e a mão não chega. Você vai para dentro da sua concha e deixa de amar quem você ama por um tempo variável de minutos a dias.

Pode acontecer uma vacilada. Não é que você não esteja mais amando quem você ama, é só um vacilo. Por exemplo, encontra casualmente uma paquera dos tempos de faculdade, ou uma paixão do colégio, aquela coisa que não chegou a ser, e alonga a conversa, fica testando se a outra parte desencanou total como você ou se guardou alguma coisa, é mais vaidade do que curiosidade, você fica tentando captar algum sinal, nem sabe se teria coragem, e nada acontece, e se despedem, e você passa uns dias com aquela imagem voltando... – e nos momentos dessa inquietação nostálgica você não está se lembrando de que ama mesmo é quem você ama.

Chuva, quando se está só, também deixa a gente precisando. Em caso de viagem, chega a doer, e você percebe que é saudade de abraço, da coisa física que é o abraço, impessoal de tão abraço. Nesse momento animal você nem está amando quem você ama, aquela coisa é só você, solidão.

É exaustivo manter a corda do amor esticada o tempo todo, e você descansa o braço para relaxar. Não é desamor, é uma pausa para beber água – mas já pensou se aquela bandida ou aquele bandido passa numa hora frágil dessas? São coisas que acontecem ao longo de um amor, e o momento passa sem bandidos, que apenas riscam a paisagem e somem como pássaros.

Quando você dorme, você não ama. É o melhor descanso. E quando sonha, então? Pode até permitir carícias de fantasmas, mas não é você que está ali, é tudo uma fantasia da qual quem ama retorna sem culpa.

Não é sempre que você ama quem você ama, mas, quando se dá conta, já passou uma vida inteira amando quem você ama.

Ivan Angelo (Revista Veja, 10/06/2009)

7/28/2009

O futuro é delas (meninas, é nóis!)

SÃO PAULO - Elas já são maioria na população, no ensino superior e na força de trabalho. A nova geração de mulheres terá, como nenhuma outra, acesso a cargos de comando em empresas, no setor público e nas universidades brasileiras. Se a igualdade com os homens em termos de oportunidades e salário ainda é uma miragem, o número de mulheres em postos de chefia no País aumentou de forma expressiva nos últimos anos e só tende a crescer. Ou seja: meninas, preparem-se.

A pesquisa 100 Melhores Empresas para Trabalhar - Brasil, da consultoria Great Place to Work, registrou aumento na participação feminina em todos os níveis. Nos postos de liderança, de 1997 a 2008, o índice subiu de 11% para 33%. “Nos próximos cinco anos o ritmo de mudanças será dobrado. As empresas estão se tornando mais éticas. Absorvem mais mulheres e permitem que elas alcancem cargos mais altos”, diz o CEO da consultoria, Ruy Shiozawa.

Elisa Carvalho, de 19 anos, não esperou a carreira começar para assumir um posto de comando. Há dois anos no curso de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV), tornou-se diretora de Relações Corporativas da Aiesec, ONG internacional que estimula o desenvolvimento de lideranças entre universitários. Ela ainda não faz ideia do rumo de sua carreira, mas sabe como construí-la. “Quando chegar à liderança, quero discutir todos os pontos, ter compromisso com resultados, fazer todos enxergarem sua importância na empresa.”

A vice-presidente do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP, Rosa Alegria, presidente da consultoria Perspektiva, acredita que o cenário para as jovens é bem mais promissor que o encontrado por suas mães. “Será um mundo mais acolhedor, porque elas terão construído ao longo da carreira um novo estilo de comando.” Rosa representa o Brasil no Millennia 2015, pesquisa colaborativa internacional que fará projeções sobre o status das mulheres em 2025 e sua atuação nas transformações globais. “A tendência é as empresas contratarem mais, mas as jovens não vão querer replicar o atual modelo patriarcal, que as impede de viver os papeis de mães, esposas e cidadãs”, afirma Rosa.

Com 26 anos de carreira, a diretora-executiva de Recursos Humanos do Banco Santander, Lilian Guimarães, acha que a visão sobre a vida profissional mudou bastante. “Os jovens hoje conseguem enxergar prioridades além do trabalho. Mais da metade quer ser dono do próprio negócio, fazer MBA no exterior.”

A participação feminina em cargos decisórios é de 53% nas 10 empresas líderes do ranking da Great Place no Brasil. Só oito são presididas por mulheres, mas a pesquisa indica que elas são mais requisitadas em tempos de crise ou mudanças. “É mais fácil para elas lidar com esses momentos, pois conseguem traduzir para o ambiente profissional a complexidade da gestão da vida pessoal”, afirma Shiozawa.

Mãe de três filhos, o caçula de 1 ano, Cláudia Santos concilia tarefas da casa com a presidência no Brasil da AMD, uma das principais indústrias mundiais de semicondutores. Há quatro anos na empresa, assumiu o cargo no fim de 2008. “As pessoas são medidas pela produtividade. A questão é fazer uma gestão inteligente do tempo e mostrar resultados.”

Há seis anos no comando da MPM Propaganda, Bia Aydar considera uma ilusão a mulher achar que conseguirá conciliar todos os papeis. “Não vi meus filhos crescerem. Doeu, mas não me arrependo. Optei por investir na carreira para ser feliz. A vida pessoal acaba sacrificada, assim como a dos homens.”

Para Rosaly Lopes, especialista em Vulcanologia do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, na Califórnia, os homens não precisam ser encarados como obstáculos à ascensão. “O que vale é trabalhar muito. Tive a ajuda de colegas que reconheceram meu talento, a maioria homens”, diz Rosaly, que já fez expedições a vulcões como o Etna e o Vesúvio e foi a primeira brasileira a ganhar o Wings Worldquest Women of Discovery, prêmio para mulheres que se destacam na exploração científica.

“A mulher está mudando a atitude e vendo que não é preciso competir com o homem”, acredita a vice-presidente do Instituto Claro, Carime Kanbour, que comanda uma equipe de sete funcionárias. “Ainda há atitudes preconceituosas, mas a competência será cada vez mais valorizada.”

O espaço conquistado no mercado nos últimos 30 anos ainda não levou as mulheres a ganharem salários equivalentes aos dos homens, embora a diferença de remuneração tenha caído. A pesquisadora Regina Madalozzo, do Instituto Insper, avaliou a distribuição de ocupações por gênero de 1978 a 2007, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE. Nesse período, a disparidade caiu de 33% para 15%. “Podemos reduzi-la para 10% em 2020. A partir daí, deve ficar estável. Na Europa, ela está nesse patamar há mais de 20 anos. Infelizmente não há ainda nenhum país com diferença zero.”

Para Carlos Arruda, professor da Fundação Dom Cabral, a equiparação não ocorrerá logo. “Talvez ainda demore uma geração. Não há mais discriminação, o problema é a falta de práticas para garantir a igualdade”, diz Arruda, único representante do Brasil no Conselho de Diversidade do Fórum Econômico Mundial, encontro dos principais executivos do planeta realizado anualmente em Davos, Suíça.

Há três anos, o fórum publica a pesquisa The Global Gender Gap Report, que avalia o equilíbrio entre gêneros nos países. “O presidente do fórum, Klaus Schwab, formou o conselho ao ver que 85% dos participantes dos encontros em Davos eram homens.”

A pesquisa estabelece uma escala de 0 a 1, da completa desigualdade ao total equilíbrio. No último relatório, o Brasil ficou na 73º posição entre 130 países, com índice de 0,674. No mercado brasileiro o número de mulheres corresponde a 1,08 na escala – ou seja, elas são maioria. Nos cargos de decisão, o índice cai para 0,52. “As vagas vão mais para os homens. Estamos formando uma força de trabalho que não é aproveitada”, diz Arruda.

Já que são maioria, cabe às mulheres mudar a situação. Fernanda Teixeira, presidente no Brasil da First Data, gigante no processamento de operações e pagamentos eletrônicos, percebeu isso. Criou há sete anos o grupo Executivas de São Paulo, que reúne mais de 200 lideranças femininas de empresas. O objetivo é discutir meios para as mulheres alcançarem a fatia de 50% dos cargos decisórios.

“Participar de organizações como essa é importante para as mulheres ampliarem seu networking”, diz. “A mulher é ruim no marketing pessoal. Os homens estão em várias comunidades.”

Um dos principais argumentos de Fernanda a favor da ascensão das mulheres na hierarquia corporativa é o fato de elas serem maioria entre os consumidores. “Sei o que o mercado precisa e defino melhor como a empresa deve agir para atendê-lo.” Ana Bizzotto - Especial para O Estado de São Paulo -, com a colaboração de BRUNA TIUSSU e ELIDA OLIVEIRA.

7/22/2009

Separações

Há pessoas que sofrem com separações, outras, muito mais raras, se alegram com isso. Realmente uma separação é sempre um alívio. E alguns logo encontram a “solidão magnífica”, conforme chamou Freud. Mas não sou esse tipo de pessoa e, para os homens comuns, separação dói muito.

O assunto não me é estranho porque já fiz um filme sobre ele e também porque tive cinco casamentos e cinco separações. No entanto não tenho nada a dizer sobre o assunto. Há coisas assim, quanto mais se vive ou mais se pensa, mas obscuras ficam.

Na primeira separação, tinha uns vinte e poucos anos. O nome dela era Eliana. Me desarticulei tanto que não podia sair na rua, achando que os edifícios cairiam sobre mim. Lembro também que foi nessa época que descobri a psicanálise e logo depois o álcool. Na boemia, no tempo sem tempo da boemia, procurava aflitamente o Amor. Quebrei minha mão dando um soco na parede e fui à sessão de psicanálise tocar uma flauta de plástico que alguém me deu, com a mão engessada. Quero dizer que sofri muito.

Na minha segunda separação sofri muito. Tinha três namoradas ao mesmo tempo, e brochava com as três. O nome dela era Leila. Em vez de tocar a flauta, fiz um filme, “Todas as Mulheres do Mundo”. Ninguém duvide disso: períodos de separação são em geral altamente produtivos.

Minha terceira separação, Nazareth, eu tinha quarenta e poucos, sofri muito e não teve graça nenhuma. Eu estava sem dinheiro e vivia minha vida nos corredores dos bancos adiando promissórias, parcelando dívidas, movido por anfetaminas. Naquela época eram vendidas como remédio para emagrecer.

Meu quarto casamento, Lenita, durou dez anos e tive uma filha. Maria Mariana. Na quarta separação tinha quase cinqüenta, tive poucas namoradas, poucas porém boas.

Até que há vinte e oito anos, casei com Priscilla, adorável criatura que me acompanha até hoje. E lá pelo oitavo ou décimo ano de casamento, passamos um ano separados. Se eu tinha desarticulado na primeira, nessa ultima desagreguei, quero dizer, sofri muito. Mas sempre produtivamente. Essa experiência resultou num filme, “Separações”.

Se eu cito esses dados biográficos nesta palestra, é apenas para tentar perceber o que há de comum entre essas cinco malditas porém necessárias passagens. Na verdade quase pode ser dito que todo homem solteiro quer casar assim como todo casado quer ficar solteiro. Não conheço nenhum casal decente que não nutra um sólido desejo de separação. Faz parte de um bom casamento, creio. Afinal, o amor tira a liberdade, sem dúvida. O que é inadmissível. E a solidão muita vezes é desagradabilíssima e vazia. Enfim, assim vamos todos, amando e desamando, carneirinhos a espera do corte.

A pergunta que faço hoje em dia a respeito do assunto é sobre a possibilidade de amar, casar e separar sem sofrer. Muito me perguntei sobre o mistério da dor do amor. Para tentar entender a dor do amor existem três indagações sobre o amor, ele mesmo.

Primeiro. Porque o amor (a paixão) acaba? Infinita enquanto dura, mas não dura. É por esquecimento de si mesmo? Porque, sendo explosão, com tempo se atenua? Porque, tendo dado ao amante sua chance de eternizar-se, não tem mais nada a fazer ali?

A segunda indagação vai mais direto ao ponto: Porque dói tanto quando o amor acaba? Porque é tão triste? Porque é inaceitável? Nenhum raciocínio ou vivência autorizou a crença de sua perenidade? Porque afinal nos dilaceramos? Ah, a dor do amor. É mais que uma angústia. É uma febre, uma desidratação. Poucas coisas são tão tristes quanto o fim de um grande amor. Talvez nem o fim da vida seja tão triste. E o que dói? Onde dói? Dói por não ser mais o que era. Dói por tudo que poderia ser, se ainda fosse, mas não será jamais. Dói a perda da paixão, única moeda cósmica que temos a nossa disposição. Porém, acalmemos. Deve haver um motivo objetivo para tanta dor. Examinemos metodicamente uma a uma as perdas.

O que se perde quando é perdido um amor? Talvez a moeda cósmica? Não, não deve ser isso. Todos os homens sofrem separações e nem todos se importam com o cosmos.

A perda do objeto sexual? Também não deve ser isso. Há muitas Marias para cada João.

Qualquer coisa ligada a ciúme de terceiros? Mas há separações que não envolvem terceiros, nem por isso deixam de ser sofridas.

Tão pouco são razoáveis as explicações psicológicas, quebra da fantasia, falência de um investimento sentimental ou qualquer coisa desse tipo. Mas também não é isso. Homens maduros, estudiosos, que certamente ultrapassaram esse tipo de acontecimento psicológico também sofrem como cães envenenados.

Aprofundemos essa espiral.

Talvez o horror da solidão quando convivemos muito com a pessoa amada, perdemos totalmente a noção de como somos sós no mundo. Nossa íntima alegria ou dor é compartilhada, ganhamos um ouvinte interessado e perder isso, convenhamos, é perder muito.

Talvez o medo da liberdade, citando Dostoievski, meu caro companheiro desde a adolescência, “Não há nada que o homem deseje mais do que a liberdade, nem nada que lhe seja tão doloroso”.

Na terceira indagação sobre o amor pergunto se ele é necessário. Na pesquisa da verdade todas as hipóteses devem ser levantadas, mesmo as deselegantes. Existirá mesmo um grande homem só? Não será um homem um animal ou dois? Como intuía os antigos gregos, um ser cuja biológica natureza verdadeira é ser parte de uma unidade maior, chamada casal. Se a função da hipótese é responder paradoxos, esta é a meritosa, posto que pelo menos explica a dor do amor. Dói porque falta uma parte, tanto quanto doeria se nos arrancassem um braço ou um olho.

Quando escrevi o roteiro do filme “Separações” eu tinha farto material a respeito. Tanto retirado da minha vivência quanto daquela dos amigos, mas não conseguia fechar a história. Somente pude fazê-lo quando lembrei da Kubler Roth e de suas fases pelas quais obrigatoriamente passa um doente terminal. Quando reparei que elas podiam coincidir com as fases do meu herói ridículo num período de separação, o roteiro ficou resolvido. Somente é possível comparar a separação de dois amantes com a morte de um homem. No filme minha ordem é: a Negação (“Não! Não pode ser! É mentira, ela vai voltar. Foi uma briguinha à tôa.”), a Negociação (“Se ela voltar para mim eu paro de fumar, subo os degraus da Penha, nunca mais vou ser galinha”), a Revolta (“Quero te matar, sua puta!”) e a Aceitação, que é quando se arranja outra namorada. Ou então a mulher volta. Observe que tomei certas liberdades com a Kubler Roth. Inverto a ordem, que é: a Negação, a Revolta, a Negociação, a Depressão e a Aceitação. E dou por subentendida a fase da depressão.

Bem, espero que quem não viu possa ver o filme. É muito engraçado ver aquele homem arrastando-se pelo chão, pagando todos os micos possíveis para recuperar a mulher amada.

Hoje tenho 72 anos, continuo querendo me separar da Priscilla, e ela de mim naturalmente, posto que somos normais e tenho a impressão que poderíamos fazer isso alegremente sem nenhum ciúme e nenhuma dor. Tenho essa exata impressão e com a mesma convicção que não acredito absolutamente nela. Morro de medo de me separar da Priscilla. Creio, concluindo, que é uma questão genética. Há homens que nasceram para viver sozinhos, e certamente não sou um deles. A verdadeira arte de viver talvez seja tentar ser aquilo que você é. O que evidentemente é muito difícil.

Me aguardem no meu próximo filme, é uma espécie de continuação de Separações. Acompanhando o casal, até digamos assim, o fim. Titulo: Inseparáveis.

Domingos Oliveira